22/05/2026

Felipão supera mágoa de Galvão e quer reatar amizade com Tite

Maio 22, 2026
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Ex-técnico diz que jogadores atuais perderam conexão com clubes, explica decisão de deixar Romário fora em 2002 e admite que não conseguiu blindar a Seleção em 2014

Em fase paz e amor, técnico do penta diz que nova geração de jogadores perdeu o amor aos clubes e admite que não conseguiu blindar o elenco para a Copa de 2014: \Foi muito problemático\


Felipão relembra a carreira, quer reatar com Tite e brinca sobre fama de bravo


GE: O Brasil vive tempos de convocação para a Copa do Mundo, situação que o senhor passou em 2002 e 2014. Foi difícil tomar aquela decisão de não chamar o Romário?Felipão: — A escolha foi naquele momento, por uma série de situações, menos a parte física do que qualquer outra coisa. O clamor popular daquela época eu entendia perfeitamente, mas tinha algumas situações que analisava e para mim não correspondiam, não era o que eu queria. Tinha o clamor, por exemplo, que o Ronaldo estava voltando de lesão. Tive a confiança e toda a situação equilibrada de dizer \eu garanto para ti que ele vai estar bem\ do doutor Runco, confiei plenamente na minha equipe de trabalho. Fiz a minha escolha e ninguém teve colocação nenhuma, a não ser dentro dessa escolha. Inclusive, o presidente, o Ricardo Teixeira, me deu total liberdade para que eu escolhesse. Eu iria arcar com os ônus ou bônus de vencer ou ser derrotado. E a escolha foi nesse sentido. Nunca teve uma situação como a atual, não dá para fazer um parâmetro.

Se fosse há 24 anos, o senhor levaria o Neymar para a Copa?— Se fosse o técnico da Seleção, analisaria o porquê, onde, o que fazer, quem faria determinada situação para que o Neymar pudesse aparecer, o que é que ele faria. Uma série de estudos que a gente faz para levar alguém e indicar alguém. Eu atualmente não tenho nada como técnico, não sou técnico, mas, no momento em que eu analisava A ou B para levar, também me socorria do doutor Runco, do doutor Serafim, que na época trabalhava comigo, Paulo Paixão, Darlan Schneider, as pessoas que podiam me dar referência sobre o que eu ia conseguir fazer com aquele jogador, na divisão entre esse ou aquele.

— Então, eu não posso dizer que levaria ou não levaria, porque não conheço a situação atual, não sei qual é o pensamento do Carlo em situação de jogo.

(Nota da redação: a entrevista foi gravada antes da convocação da última segunda-feira)

Felipão responde se levaria Neymar para a Copa do Mundo

É possível estabelecer um paralelo entre as convocações de 2002 e 2026? Tanto pelo debate em torno da convocação de um determinado jogador (antes Romário, agora Neymar), quanto pelo fato de o craque do time estar voltando de lesão (daquela vez Ronaldo)?— Mas o paralelo que fazem não é o correto. Nós tínhamos uma situação já vivida, estudada. Não era por lesão, era uma questão pessoal, muitas vezes, porque nós iríamos jogar de uma determinada forma, tínhamos um jogador com determinadas características e, para incluir determinado jogador, eu teria que fazer algumas concessões, ou alguns teriam que fazer alguma coisa diferente.

Naquela época, a convocação era bem diferente. A CBF tinha uma sede na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, os acessos eram diferentes. O que você passou naqueles dias?— Eu estive na Alfândega agora porque fui ao consulado americano lá no Rio essa semana. E eu me lembrava, olhei bastante para os lados. Lembrei o que a gente passou. Passou as dificuldades da não convocação de A ou B, de que a torcida não entendeu, se revoltou, quase virou o carro que estávamos. Uma situação que não era normal para um técnico, que não acho que seja correto para nenhum técnico. Ele vai fazer sua escolha e sua escolha tem que ser a escolha nossa, do povo. A escolha dele é a nossa, porque ele que está envolvido e ele vai arcar com a sua responsabilidade, como o presidente falou comigo naquele dia: \Faça sua escolha e a responsabilidade é tua\.

— Vocês se lembram que eu fiz a convocação e tinha um livrinho azul que era anotado à mão, porque naquela época eles queriam que eu fizesse a convocação no dia anterior para submeter para vocês (imprensa). Eu não, vou levar o meu time na hora. E até a seleção fez uma escolha para mim do voo Porto Alegre-Rio de Janeiro e não fui. Eu fui Porto Alegre-São Paulo, São Paulo-Rio de Janeiro, porque eu não queria ter nenhuma situação envolvida comigo. Então, todo mundo me esperando no Galeão e eu por São Paulo, depois para o Rio, faço a minha convocação. Eu fiz a convocação, foi escrito naquele caderninho, o pessoal achou até estranho, como é que pode ser? Então, fiz aquela convocação e aí fizemos toda a arrumação para que não acontecesse uma situação igual a que a anterior tinha havido. A turma já sabia que não ia ser convocado A, B ou C e aí tinham agido de uma forma ridícula no Rua da Alfândega.

Há paralelos entre a situação de Neymar agora com a de Romário em 2002? Felipão responde

Na época, se falou que o Romário quebrou sua confiança com uma operação no olho, teve a história da aeromoça... O que realmente aconteceu?— Teve um monte de historinha. Quando tem algumas histórias que a gente fica sabendo ou toma desconhecimento, sim ou não, não sabe, mas quando tu analisas as características do teu time, dos jogadores que vai dispor no teu time, aí que é importante saber se tem que convocar ou não. Eu tomei as decisões que achei que tinha que tomar naquele momento e baseado no staff que eu possuía também, uma série de detalhes que tinha conhecimento e que vivenciava no dia a dia.

Essa foi a discussão mais midiática, mas internamente havia outras dúvidas mais difíceis?— Uma ou outra. Não esqueça que nós assumimos, se eu não estou enganado, éramos sexto colocados e classificavam quatro naquela época. Nós iniciamos perdendo para o Uruguai. Foi difícil. Quando chegou a Copa América, nós perdemos para Honduras. Daí reforçamos a ideia de que já tínhamos 18, 19, 20 jogadores dos 23 que nós levamos, já certos. Vimos ali na Colômbia, com quem nós podíamos contar, com algumas situações de bastidores que vivíamos e que a imprensa não tinha conhecimento. A gente vai ajeitando, escolhendo.

Condicionam muito a questão do Romário ao fato de vocês terem ganhado a Copa, mas o mais importante numa decisão dessa é a convicção antes do resultado?— Sabem muito pouco do ambiente vivido por todos. A gente que vive o ambiente tem alguns conhecimentos diferentes de quem está fora e que opina. A gente não pode se basear nessas opiniões. Tem que se basear na sua opinião própria. Se der certo, muito bem, ótimo. Foi o que o Ricardo falou para mim. Se der certo, está tudo bem. Se der errado, tu vai ter que responder.

Por que Romário ficou fora da Copa de 2002? Felipão responde

Outra ausência muito comentada foi a do Alex. Por que não levá-lo?— Foi uma questão de momento vivido e de escolha, porque eu precisava de um jogador com aquelas características que foi escolhido o menino do Corinthians, o Ricardinho. Quando toma a decisão, é sozinho, mas ouve a opinião do preparador físico, do médico, mas tem que tomar a decisão. Nós entendemos naquela oportunidade que não precisávamos de um atacante mais com aquelas características. Havíamos trabalhado com o Alex e sabíamos que as características dele eram mais à frente do que no sentido de recompor. E o Ricardinho recompunha mais.

Às vésperas da Copa, você perde o capitão, que era o Emerson. Qual o peso disso naquela Copa do Mundo?— Eu perco o capitão, perco a pessoa que era da minha confiança, que trabalhava aqui no Sul também. Mas a perda de um jogador naquele momento era diferente da atualidade. As notícias que chegavam, a forma como chegavam, a forma como se focava o jogo naquela época, fazia com que a gente pudesse trabalhar intimamente o grupo para que aquela perda não fosse totalmente sentida, mas, sim, de uma forma a incentivar o resto do grupo a fazer alguma coisa. Com aquela perda, um jogador ganha a posição e fez um campeonato mundial espetacular, que é o Gilberto Silva, com uma característica que dava ao Roque Júnior, ao Edmilson, ao Lúcio, aos dois laterais, a tranquilidade até maior do que o Emerson possuía. Ele estava ali para fazer o trabalho hipoteticamente sujo que precisava.

Achamos uma manchete de um jornal do Rio de Janeiro que te definia como \o homem com fama de mau\. E você falava que era uma questão do futebol gaúcho ser diferente, jogar muitas vezes na lama e tudo mais...— Eu fui há pouco tempo no Serginho Groissmann (Altas Horas), que é meu amigo de 30 anos. E aí, quando eu cheguei: \ele tem cara de bravo\. Pelo amor de Deus, não sou bravo, não sou nada. Mas é a imagem que passava. Quando jogador de futebol, eu encarava meus adversários de forma tranquila, com amizade, com sinceridade, mas fazia valer o meu lugar. Depois, como técnico, teve uma ou outra briga no decorrer desses anos. Foi muito comentado, principalmente pela imprensa, que a minha fama era de que se fizesse isso, fizesse aquilo. Nunca fomentei essa situação, mas também não me preocupava que fosse falado.

— Eu me lembro que quando fui pela primeira vez para o Palmeiras, a imprensa de São Paulo dizia que eu não ia durar um mês, porque tinha tido uma briga homérica com o Palmeiras anos atrás. Quando eu trabalhei com o Grêmio e um dos nossos perrengues era o Palmeiras com a Parmalat, lembram? Fui para lá e me dei tão bem, tanto que hoje é um time que eu adoro. Eu sou gremista, nasci gremista, mas adoro o Palmeiras e tenho uma admiração muito grande. Meu segundo time no mundo é o Palmeiras. As pessoas achavam que não ia dar certo, mas é a forma de trabalhar, de observar.

Será que houve também uma tentativa de construir um anti-herói por tudo que se imaginava daquele Palmeiras do Vanderlei Luxemburgo, aclamado com o futebol mais bonito?— Futebol bonito, minha opinião, é o que vence. Se não venceu, não é bonito. O Criciúma foi campeão da Copa do Brasil contra o Grêmio empatando 1 a 1 no Olímpico, e 0 a 0 em Criciúma. Não jogava bonito, não. Jogava para o gasto. Eu me lembro que uma vez nós estávamos ganhando em 1995 na final da Libertadores do time da Colômbia (Atlético Nacional), 3 a 0, e aí tomamos um gol, porque fomos querer jogar bonito. Eu entrei no vestiário e queria matar os caras, foi 3 a 1.

Mas vocês gostavam também de alimentar isso. O senhor e o Cacalo (dirigente na época do Grêmio) trabalhavam essa imagem para o Grêmio copeiro e brigador?— Claro, o Cacalo era o meu diretor, que sentava comigo no banco. Estava 0 a 0 um jogo contra o Palmeiras, contra a Corinthians, e coisa e tal. Eu ia colocar mais um atacante, o Cacalo dizia assim: \0 a 0 está bom, calma, não inventa, não faça isso\. Era uma outra época. Nós do Sul jogamos um futebol mais pegado, mais forte que o futebol paulista e o futebol carioca, o futebol mais jogado, mais trabalhado. Mas tiveram times que jogaram bonito.

Qual o seu time que jogava o futebol mais bonito?— Eu não digo mais bonito, mas a situação que passava a segurança era o time do Grêmio em 95. Qualquer um que entrava na equipe tinha segurança, sabia o que ia fazer. As pessoas têm a ideia de que o Palmeiras era um time muito forte, mas o Júnior Baiano, que todo mundo acha que ele não jogava muito, batia e jogava para caramba. O Júnior Baiano foi um dos melhores jogadores que eu tive na vida. Ele sabia jogar. Quer dizer, se tem um time do Palmeiras com o Arce, Júnior Baiano, Roque Júnior e o Nagata (Júnior, lateral-esquerdo). Tem César Sampaio, Alex, Pena, Oséas, Basílio, Euller. Não jogava bonito, mas era um futebol que você sabia que ia ganhar de 1 a 0, 2 a 0. Tinha dificuldade, mas sabia que ia fazer gol.

Na Copa das Confederações de 2013 também jogou bonito...— Esse foi o problema de 2014, que ganhou a Copa das Confederações em 2013 jogando maravilhosamente bem, bonito, todo mundo alegre, feliz. Em 2014, deu uma série de probleminhas, não com os jogadores, mas entre nós lá dentro. Nós temos que assumir algumas dificuldades e deu errado. Depois, jogar no Brasil é muito difícil, mais difícil do que jogar fora. Jogar fora não tem a pressão que tem aqui.

A pressão externa e as cobranças por ser uma Copa no Brasil atrapalharam muito? Ter vivido essa geração tecnológica prejudicou?— Nós não conseguimos blindar ou fechar totalmente a Seleção da forma como blindamos ou como estávamos blindados em 2002. Foi muito problemático, porque a gente tinha que tomar umas atitudes que impactavam junto às pessoas que trabalhavam conosco, comerciais, empresas que eram patrocinadoras, uma série de detalhes. Interesses pessoais, interesses de grupos dentro da Seleção. Uma coisa eu posso te dizer: depois de 2002, que a Seleção ganhou o Mundial, 2014 foi quarto lugar. Foi o melhor lugar que nós chegamos até hoje. É ruim? Sim, foi ruim, mas ainda foi o melhor lugar. Ninguém lembra disso.

Bastidores do 7 a 1: Felipão diz que Copa das Confederações “foi o problema”

Foi possível identificar \essas coisinhas\ que o senhor fala na época ou só depois fez uma reflexão e diagnosticou?— Principalmente depois da Copa. Principalmente quando nós perdemos e que quem tem que assumir é o treinador, e quem assumiu fui eu. A derrota que até hoje é falada em 7 a 1 para a Alemanha. E que a gente vai somando uma coisa e outra e vai captando que aquilo poderia ser diferente. Mas não tinha como fazer diferente porque você fez de acordo com aquilo que achava o ideal. Só que aquele dia não deu o ideal, foi errado, foi errado. Aconteceu tudo o que aconteceu. A catástrofe aconteceu e não podemos voltar atrás, não. É assumir o que tenho que assumir.

É um tema que o senhor hoje aborda de maneira mais natural? Em algum momento tentou não falar? — Sim, sim! Tentei, mas tive um apoio muito grande em 2014, principalmente do doutor Fábio Koff (então presidente do Grêmio). Eu morava em São Paulo e ele foi lá e disse para eu não ficar remoendo a situação de derrota o resto da vida. Foi um segundo pai que tive, e disse que eu iria com ele para o Grêmio. O clube estava sem treinador e que eu assumiria. Voltei, me entreguei de corpo e alma e fui esquecendo até 2015, quando rumei para a China. Tive apoio, não foi sozinho. Quer queira, quer não, mas também tive o apoio da minha família. Eles vivenciaram a situação de derrota e me deram... Não força, mas o apoio para esquecer e viver o que eu sempre vivi.

O senhor chegou a pensar que poderiam lembrar mais do 7 a 1 do que de 2002? — Te farei uma pergunta. Quem ganhou em 2002?

A Seleção.— A Seleção! Quem perdeu em 2014?

A Seleção.— Não... Felipão! Eu levei um tempo para assumir, mas depois foi normal porque este é o pensamento que acho ser da população. Alguém tem de assumir e, se um desastre aconteceu... Se eu fosse escolher, trabalhar, fizesse tudo... Agora fará de novo? Vai mudar tudo? Não! Eu não mudaria porque entendia à época que aquilo era o melhor.

As caras e bocas de personagem do futebol brasileiro: aos 77 anos, Felipão apresenta versão paz e amor — Foto: Victor Lannes

Esse quadro de família próxima, do Koff... Isso foi uma depressão? — Não!


— Nunca tive depressão! Um cara como eu, que gostava do vinho, churrasco, chimarrão, vai ter depressão na vida? Não, mas machuca. O resultado não era esperado, nunca vai ser aceito. Nem por mim e nem por ninguém!


— Machucou, mas logo depois o ambiente, as pessoas que lidam contigo dão a mão e ajudam. Elas te socorrem. Assim como você socorre A, B ou C quando eles precisam. Se tu fazes o bem, recebes o bem.

O senhor reassistiu àquele jogo? — Eu nunca reassisti ao jogo, nenhum jogo. Lances esporádicos, em uma outra oportunidade, assisto ou relembro... \ahh! Está bom!\. Mas eu não vejo o jogo no dia seguinte ou dois, três, quatro anos depois. Tenho mais ou menos uma ideia e aquilo ali segue. E a minha vida no futebol sempre seguiu normalmente. Não vejo motivo para fazer algo diferente daquilo.

O senhor lembra como foi aquela noite ou o dia seguinte? — Não lembro! Provavelmente não devo ter dormido, ficado chateado ou dormido pouco, mas para dormir eu não pago imposto. Devo ter sentido normalmente como todos, mais por isso ou por aquilo... Por que eu não fiz? Por que aconteceu aquilo? Aconteceu.

É verdade que depois daquela derrota o senhor se chateou com o Galvão Bueno e que também não queria mais falar com a Globo? — Fiquei chateado por algumas colocações, mas depois de um certo tempo falei com muita gente daquele tempo. Tenho 77 para 78 (anos). Vou levar adiante para quê? Vou ficar chateado com A ou com B? O que eu vou ganhar? Quanto tempo eu tenho de vida ainda para poder ficar raivoso com alguém? Passou! Cada um faz o seu trabalho. Só acho que podemos ser lembrados como vivemos certos assuntos antes de tomar uma atitude. Claro que fiquei magoado com uma ou outra situação, mas já não tenho nenhuma preocupação ou qualquer coisa com A, B ou C. Nem o Galvão nem o João, o Pedro... Já passou! Encerrou o assunto, seguimos para frente. Pronto.

Felipão admite que chateação com Galvão Bueno, mas diz: “Já passou, encerrou o assunto\

Acredita no hexa?– Acredito. E torço para que o Carlo consiga, o Rodrigo Caetano, a turma que está envolvida no processo. E o seguinte: o que envolve uma Copa do Mundo, que ninguém está ainda falando muito, são os cruzamentos. A primeira fase é Marrocos, Haiti e Escócia, tudo bem. Mas depois vêm os cruzamentos. Esses cruzamentos são os importantes, porque aqui (primeira fase) você pode até perder um jogo. Lembra que a Argentina perdeu para a Arábia Saudita e foi campeã? Mas ela perdeu nesses três jogos.

– Depois são os jogos que nós falamos aqui no Sul: o mata-mata, um jogo só. A tua equipe ou está bem ou está mal. E aí a gente perde ou ganha. Os cruzamentos são importantes. Pelos cálculos da turma que nós temos aqui no Grêmio, se nós passarmos em primeiro, nas outras chaves vamos pegar uma situação mais ou menos (na segunda fase). Aí depois são cruzamentos: Argentina, Espanha, Portugal, Inglaterra, França. Esses são os jogos que tu não pode errar.

Recentemente, em outra entrevista, você falou que essa geração é parecida com a sua de 2002, mas com um pouco menos de qualidade. Ainda assim, dá para ganhar?– Dá para ganhar. Em muitas situações, o time não sendo o melhor, mas naquele dia estando equilibrado... Passa! Tem que ter o equilíbrio daquele jogo. Hoje os jogos todos são estudados de uma forma colocada no vídeo, uma vez, duas vezes, três vezes, cinco vezes. Já no meu tempo, em 2002, (analisamos) a entrada do Owen da ponta esquerda para o meio, aquela jogada já era estudada. Não era para acontecer. Imagina agora. Nós temos que saber também, nós brasileiros e os jogadores brasileiros, a comissão, é que precisamos ter uma seleção brasileira nossa, uma seleção envolvida. Que nós saibamos que A vai fazer um trabalho para que B receba, para que C seja finalizador. Nós temos que saber tudo isso para que, em determinadas situações, em inferioridade, consiga equilibrar.

Confiança no hexa! Felipão comenta chances do Brasil na Copa

O senhor tem muita experiência no futebol e hoje parece estar com a percepção mais leve de tudo. Tem a impressão de que o ambiente do futebol está mais hostil de tempos para cá?— Uhum! Tenho. Inclusive, converso bastante com o meu filho, que está aqui no Brasil (o outro está em Portugal). Falo muito com ele e com a minha esposa como modificaram o futebol e atitudes de jogadores e trabalho. O futebol não é mais jogado com alegria. Financeiramente é o que vale agora.

— Vejo nas escolinhas, já que tenho lidado muito com categorias de base. Vou bastante entre o sub-14 e sub-20, mas ouço relatos que na sub-10 os pais brigam com professores. Sub-10! Como vai saber se um menino de dez anos vai jogar futebol? As pessoas estão vendo com outros olhos, o que antigamente não era assim.

Com empresário, rede social... — Já tem empresário com dez anos! Tem rede social... Pais que vão ao CT e, se o menino está na reserva, brigam com o técnico! Meu Deus do céu! Não era assim, mas agora mudou. É diferente o futebol dos últimos dez anos para cá.

O próprio Palmeiras, que o senhor conhece tão bem, é vaiado mesmo estando na liderança do Brasileirão...— Picham o muro! Leila não sei o que, pelo amor de Deus! O que ela tem feito pelo Palmeiras. Vejo aqui no meu time, o Grêmio... Se faz um cruzamento errado é o fim do mundo! Mudou bastante, garanto isso. A situação de envolvimento com o torcedor passou a ser de muita cobrança.

— Há uns dois meses, fui ver um treino de quem não esteve em uma viagem. Treinou quem estava lesionado e quem sobrou. Fui dar uma força, conversar com os jogadores. Eu vi o treino de determinado atleta que fazia força e outro que queria, mas não tinha força. Não era por falta de vontade, mas porque já não tinha força. Mas passar isso para a imprensa e ao torcedor é muito difícil. Ele quer, mas já não tem a força que o companheiro tinha. Não é que não se dedique, mas que não tem a força ou a qualidade.

O senhor entende de onde vem a impaciência? — Hoje estou do lado de lá. Acho que passamos muito da impaciência ao torcedor, muito mais do que precisa receber de nós.

Talvez seja uma questão social? Vivemos em um país onde a desigualdade é tão grande que um jogador que ganha R$ 1 milhão não tem o direito de errar. — Não podemos falar isso no futebol. Se ele ganha R$ 100, R$ 10, R$ 20, R$ 1 milhão, é da vida. Esqueça! Tem de ver se tem a qualidade. Outro dia ouvi falar do treinador: \ah, nossos treinadores...\. Quer mais qualidade do que tem o Carlo Ancelotti? Uma pessoa espetacular. Temos de ver a qualidade. A sociedade como um todo recebe informação que muitas vezes não precisava. Se ganha tanto ou não é assunto do clube. Se ele pode fazer, ótimo. Caso não possa, não faça. Pronto!

Hoje o senhor não é mais treinador. Melhorou a saúde? Vimos os episódios do Muricy, Ricardo Gomes... — Estou bem de saúde, graças a Deus! Eu não me estressava.

O senhor era divertido, mas muitas vezes se estressava... — Eu chutava o balde! Pronto! Acabava o assunto! Eu ia para minha casa e ficava tranquilo. Na hora, falei o que precisava e acabou. Guardar mágoa por algo, nunca. Meu nível de saúde... Falo com a minha esposa, a Olga, com quem sou casado há 53 anos: \Olga, te cuida porque quando morrer será devagarzinho. Eu serei seco. Pronto. Morreu. Deu\. Vais a médico, geriatra, não sei mais o quê. Não vou em nenhum! Quando der, deu! Pronto! O que é errado, né? Tudo bem. Eu sei que é errado o que estou dizendo. Mas não me estressava.

Por que essa pessoa que hoje se mostra divertida e carismática sempre teve uma casca para o \lado de fora\ do futebol?– Porque não era do seu tempo, mas fizeram isso aí.


– Montaram um estereótipo meu. Que o Felipão é isso. Eu não era isso, eu não era e não sou. E também me servia, né? Com os grupos que eu dirigia. Então foi montado, e eu passo hoje em uma e outra palestra que tenho feito. As pessoas vão me conhecendo e dizem: \mas não é assim\. Já passou, está bom. Já foi montado. E também foi uma época que a gente usava esse tipo para algumas situações que eram boas para o grupo


O senhor esteve em São Paulo com o Abel Ferreira para homenagem...— Ele foi meu jogador.

Ele tem algo de Felipão nas coletivas?— O Abel sempre foi assim. Uma pessoa preocupada com o dia a dia e com toda aquela situação. Quando ele foi convocado, lembro que ele se preocupava com uma ou outra coisa naquela época, como jogador. Em falar, em conversar, em solicitar uma coisa ou outra para o amigo.

— Ele se preocupava com a pessoa ao lado dele. Ele era jogador, não era diretor. Então eu vejo o Abel hoje, às vezes, em determinadas situações, reagindo como eu acho que ele reagiria se ele estivesse em Portugal. Ou se ele estivesse ainda como jogador. Eu lembro dele como jogador daquela época. Por isso que entendo, aceito e acho que às vezes ele pode agir intempestivamente como eu agi em algumas oportunidades. Não me arrependo, era a minha forma de ser. Aconteceu. Mas acho que ele é um cara preocupado e é autêntico desde aquela época.

O treinador tem que passar essas mensagens, fazer um \nós contra todos\?— Tem que passar. Quer dizer, não é \nós contra todos\, mas é o teu grupo, é o ambiente, é o jogar, é o resultado. Um monte de coisas que o treinador tem que estar envolvido e os jogadores juntos. Eu acho isso. Eu gosto. Admiro o Abel, pelo amor de Deus.

Felipão fala de admiração por Abel Ferreira e lembra como foi dirigi-lo

Um caso que pode servir de exemplo, e que até virou folclore no futebol, foi quando vazou o senhor dizendo no vestiário do Palmeiras que \tem que ter raiva da p... do Corinthians\, em 2000. Afinal, você deixou os jornalistas ouvirem aquilo propositalmente?– Não foi verdade! Não foi verdade que eu deixei o repórter colocar o microfone ou que estava a janela aberta (de propósito). O repórter, ou a repórter, não foi correto. Jamais imaginei aquilo. Eu falava para o meu grupo. Nunca falei em direção à torcida do Corinthians, ao Corinthians ou quem quer que seja. Eu falei ao meu grupo o que era ter vontade, raiva, tinha que ter, jogar com gana. Eu não sabia que alguém estava colocando o microfone. A pessoa que fez isso foi mal-intencionada. No meu grupo eu não fui mal-intencionado. Eu fui bem-intencionado. Se atingiu alguém, eu peço desculpa, mas não fui com essa intenção.

Teve o papo de que talvez fosse até uma forma de inflamar...– Não foi, não foi. O que eu queria, fiz dentro do grupo. Lá fora foi a pessoa que não foi correta comigo. Mas você entrava no Palmeiras, você fazia tudo. Agora não entra mais.

Anos atrás circulou a informação de que o Corinthians tinha interesse em contratá-lo e que até chegou a abrir negociação. Isso realmente aconteceu?– Existiu em duas oportunidades. Mas depois, quando a gente imaginava ou quando ia para os \entretantos\, os \finalmentes\... Eu sou muito vinculado ao Palmeiras. Será que eu seria bem aceito? Eu faria essa pergunta para mim. Os dirigentes também fizeram essa pergunta para eles próprios. E a gente chegou à conclusão que não era o ideal. Respeitei, sempre respeitei.

– É como aqui, Grêmio x Internacional. Já estive com o presidente do Internacional no hotel em Gramado acertando contrato, mas depois nós pensamos. Era o Fernando Carvalho. \Fernando, acho que não\. Nós somos tão amigos que eu vou comer um churrasco com ele em determinado dia aqui, já marcamos e tudo mais. O Abel vai estar junto, o Tite vai estar, mesmo que a gente nunca mais tenha se falado, é um momento de falar da amizade que nós tínhamos em Caxias há 300 anos. Ela não pode ser posta assim por causa de um jogo.

– \Fernando, acho melhor não, por causa disso e daquilo\. Mas a amizade continua, o respeito. Isso que é bonito: respeito pelo clube, pelas pessoas. Então, não sei se eu iria um dia. Acho que seria muito difícil a aceitação em Corinthians, Internacional. Mas era e ainda sou profissional, trabalho aqui no Grêmio, mas era um técnico profissional. É isso que também acho que as pessoas muitas vezes esquecem. O Roger (Machado) foi nosso aqui (no Grêmio), um lateral maravilhoso, fantástico, foi nosso treinador. Ele foi treinar o Inter, e eu vejo que às vezes a torcida não (aceita). Ele é um profissional do mais alto gabarito, um dos melhores técnicos que tem por aí. Por que não aceitar um técnico? Por que nós, da Seleção, temos que ter técnicos só brasileiros? Temos que ver a qualidade. Meu Deus, eu vejo a qualidade. Então, não interessa se tu é A, B ou C, ou se tu gosta de A, B ou C como equipe. Interessa o teu profissionalismo, a tua qualidade.

Felipão revela negociações para dirigir Corinthians e Inter

Pretende se reaproximar do Tite?– Claro, claro, conversar, porque afinal, depois do que nós vivemos, nunca mais tivemos um relacionamento de amizade. É como eu disse antes, passou, terminou, por uma razão ou outra aconteceu uma situação que eu não gostei, e ele provavelmente não tenha gostado. E pronto, passou já. Vamos encerrar. Para quê? Ou vamos ter um relacionamento como pessoas humanas, normal?

O que o futebol representa para você?– Representa a minha vida, cara. Tudo o que imaginei, eu vivi, vivi bem. Recebi essa oportunidade e fiz por merecer. Eu tive possibilidades de melhorar a minha vida em tudo. Conviver com pessoas que eu jamais imaginava, ter amigos do mundo todo, que eu nunca pensei nisso, ser campeão do mundo. Pô, eu soube esses dias que só tem sete técnicos campeões do mundo vivos, eu sou um deles. Maravilhoso, né? Nunca pensei nisso. Quando eu pensei em jogar futebol, nos meus 17, 18 anos, imaginei jogar Aimoré, Caxias. Uhhh... chegar no Grêmio? Eu não podia chegar, porque era ruinzinho, né? Então, eu chegava. Não imaginei tudo isso. Nunca imaginei o ambiente que vivi.


Por Bruno Cassucci, Cahê Mota, Raphael Zarko e Tomás Hammes — Porto Alegre

Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes

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