segunda, 21/novembro/2011 14:54:00

Dourados, cidade grande do interior


A primeira monografia a respeito de Dourados foi escrita por Ercília de Oliveira Pompeu, no ano de 1965. Nessa época, não tínhamos grande importância e nem destaque como cidade pólo. Essa historiadora, douradense adotada, nasceu no ano de 1917 nas adjacências das Matas do Vacaria, no povoado de Entre Rios, atual município de Rio Brilhante.

Em 1919, quando seu avô João Rosa Goes, resolveu se estabelecer como comerciante na pequena povoação douradense, a guria Ercília de Oliveira Goes, curiosamente estava vivendo na companhia dos avós. Seus pais, acomodados, resolveram permanecer em Entre Rios. Criada atrás do balcão da casa camponesa fundada pelo avô, dali viu o povoado douradense virar distrito e posteriormente município.

Casando-se com o mineiro Amael Pompeu Filho, teve quatro filhos. Assim, como poucos dos historiógrafos da região, ela descreveu detalhadamente a vida dos ervateiros na Companhia Mate Larangeira, mostrando seus costumes empregados e dos habilitados ou administradores regionais, da poderosa empresa ervateira fundada pelo gaúcho Thomáz Larangeira.

Um dos maiores defensores da emancipação douradense, segundo Ercília Pompeu, foi o médico pediatra Nelson Becker de Araújo, que tinha um irmão general, amigo do também general Filinto Muller, homem forte do governo federal e simpatizante desse movimento separatista.

Pelas minhas pesquisas feitas, concluí que o capitão Heitor Mendes Gonçalves, homem influente da Companhia Mate Larangeira, residente em Ponta Porã, era radicalmente contrário ao desmembramento municipal. Entretanto, o coronel gaúcho Ponciano de Mattos Pereira, fazendeiro aqui residente, provavelmente indicado por Filinto Muller, foi nomeado para o cargo de intendente do município de Ponta Porã, nome dado aos prefeitos da época.

Nessa função, o coronel Ponciano tratou de transformar Dourados num distrito daquele município, iniciando o primeiro passo para a futura emancipação douradense. A propósito, ao contrário daquilo que se pensa, ou querem fazer pensar, a povoação de Dourados sempre teve esse nome, inspirado no Rio dos Dourados. Este manancial, caudaloso, banhava as proximidades do Forte Militar, destacamento imperial dos Dourados, comandado pelo Tenente Antônio João Ribeiro. Oficial do exército, ele sucumbiu imolado pelas tropas paraguaias, quando a cidade de Dourados, sequer existia no mapa mato-grossense.

Quanto ao pioneiro gaúcho Joaquim Teixeira Alves, este chegou em Dourados no ano de 1903, onde em seguida tomou posse de quase quatro mil hectares de terras devolutas. Sua propriedade vasta começava na figueira histórica do pacto, ocupando uma enorme área, que se estendia além do cemitério Santo Antônio, a qual chamou de fazenda Cabeceira Alta.

Criador de gado, certa vez arrendou duzentas cabeças dessas rezes para o Juiz de Paz Paulo Hildebrando, que terminou negando o arrendamento e provavelmente mandou assassiná-lo em 1920. Sua viúva, Pureza Carneiro Alves, querendo evitar o pior economicamente, vendeu uma parte dessas terras já legalizadas, para o fazendeiro Izidro Pedroso, dono da fazenda Lageadinho, na região do Serrito.

Essa propriedade rural do Izidro Pedroso achava-se nas proximidades do campus universitário. Nascia então naquele tempo, a fazenda Coqueiro, cuja sede era próxima do atual Centro Administrativo Municipal. O gaúcho Izidro Pedroso veio parar nesta região, oriundo da cidade de Bagé. Aqui chegou em 1896, inicialmente viajando como domador de cavalos para Thomáz Laranjeira. Casando em 1898, sua filha primogênita nasceria na região douradense em 1900, o mesmo acontecendo sucessivamente com os outros filhos. Morreu em 1954 e foi enterrado no cemitério Santo Antônio, cuja área doou ao município.

Finalmente, Marcelino José Pires Martins, vindo do norte paranaense, lugar onde nasceu, este pioneiro chegou na região de Maracajú em 1881, para trabalhar na fazenda do tal de Joaquim Barbosa. Ali, ele conheceu Eulália Garcia, e esse encontro resultou em casamento. Marcelino Pires, o noivo, tinha vinte e cinco anos de idade e Eulália apenas treze. Inicialmente, o casal morou no lugar onde hoje está à colônia Santa Terezinha, no município de Itaporã. Marcelino Pires, agricultor de tradição, lá plantou algumas roças de café, que morreram devido às geadas. Olinda Pires de Almeida, sua única filha viva, disse num depoimento testemunhado, que sua mãe lhe contou, essa ter sido a causa da mudança de sua família para Dourados, um pequeno povoado que estava nascendo.

Como era de costume local, Marcelino Pires aqui chegando, se apossou de uma área devoluta, onde hoje está localizado o Parque Alvorada e Jardim Flórida, indo suas divisas, até as adjacências do Colégio João Paulo dos Reis Veloso. E bastou esse ato, para iniciar um sério desentendimento com o igual posseiro Joaquim Teixeira Alves. Pois ambos, sendo ocupantes da área, pretendiam usar o animus domini na terra demandada. Truculentos, eles romperiam na época, o relacionamento de amizade. Talvez ocorresse isso tudo, devido ao fato dessas terras, nesse tempo serem reivindicadas por ambos. Todavia, Marcelino Pires, gravemente enfermo, mesmo sendo bem atendido em Campo Grande pelo sobrinho médico Vespasiano Martins, faleceria em julho de 1915.

Diante do problema, somente após essa fatalidade, D. Eulália Pires receberia o domínio ou escritura da propriedade requerida, em limites divisionais menores. A mesma coisa, na maneira cartorial, aconteceu ao pioneiro Joaquim Teixeira Alves. Conclui-se, desta maneira, querendo-se restabelecer o curso da história douradense, que Marcelino Pires não doou área nenhuma, para nela erguer um povoado, enfim já existente. E nem poderia fazê-lo, sem ter o domínio dela. Aliás, essa escritura de doação nunca existiu. Porém, obviamente alguém, em nome de interesses políticos, certamente andou alterando os anais da história local. Porque em síntese: Marcelino Pires, não fundou o povoado de Dourados, doando terras de sua propriedade!

Dessa forma, a lógica é que terminada a guerra do Paraguai, uma das muitas paragens administradas pela Empresa Mate Laranjeira no Mato Grosso, aglomerando ex-combatentes, índios e migrantes, acabou tomando a forma desenvolvida de um povoado. Fala-se nesse ínterim, em muitos ranchos cobertos de sapé, existentes próximos da atual Praça Antônio João. Comenta-se também, a respeito das cinco primeiras casas de madeira, todas construídas pelo carpinteiro Januário Pereira de Araújo. Ora, se tudo conduz a essa conclusão inequívoca, melhor e mais justo, seria mudar o nome do fundador da cidade, atribuindo o ato a Januário Pereira de Araújo, artífice inspirador das construções seguintes e da igreja católica Imaculada Conceição em 1925. Afinal, ela criou a paróquia, para cuja congregação franciscana dirigente, seus familiares ainda prestam inestimáveis serviços assistenciais até o presente.

  • Isaac Duarte de Barros Junior: advogado criminalista, jornalista, douradense nato.

1 Comentário

Não tenho certeza, pois ainda estou pesquisando, há indícios que o senhor Izidro Pedroso é meu parente.É fascinante descobrir seu passado ja que não conheço o histórico da minha família.

 
Tainara de Lima Padilha em 19 de janeiro de 2012 - quinta às 14:17

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