terça, 16/novembro/2010 05:56:00

República brasileira

Por Isaac Duarte de Barros Junior*



Um dos mais ferrenhos partidários do atual sistema de governo, o pernambucano Joaquim Saldanha Marinho, signatário do manifesto republicano de 1870, era um sociólogo e jornalista que escrevia artigos ferinos usando o pseudônimo de Ganganelli. Muito parecido com o nosso Manoel Marques Cardoso, era dono de um cunho redacional autentico. Saldanha, nunca poupava críticas em desfavor de atos políticos que prejudicavam a economia centralizadora do país. Nordestino temperamental, quando a república de Deodoro da Fonseca substituiu a monarquia Bragança e dos coronéis titulados como nobres, o jornalista articulou uma frase célebre: ‘esta não é a republica dos meus sonhos’.

Formado em direito pela faculdade do Recife na década de trinta do século dezenove, foi preterido pelo imperador na lista tríplice de senadores vitalícios. Passado algum tempo, certa vez, escrevendo um dos seus artigos, Saldanha Marinho disse que tivemos dois duques sem nenhum sangue real, o primeiro seria a duquesa de Goiás, filha do adultero imperador Pedro l. O outro, dizia ele, foi o respeitado duque de Caxias, agraciado pela dinastia para obter apoio do exército. Essa verdade, para a moribunda monarquia, foi uma revelação sorumbática. Anos depois, no dia 15 de novembro, os cadetes do coronel Benjamim Constant colocaram o convalescente marechal Deodoro, herói da guerra do Paraguai, montado num cavalo baio e deram vivas a republica. Por seu turno, monarquistas criadores de impostos nas cacundas dos súditos, davam um sarau na ilha fiscal homenageando ao odiado conde frances, marido da princesa Isabel. Assim, sem escravos e monarcas, a nação acompanhou a distancia o golpe militar no Rio de Janeiro, vendo a nossa republica nascer.

Desse modo, no século passado, profícuo em golpes fardados, os civis assistiam as espadas desembainhadas inventarem modelos de república. Constituintes e constituições, atendendo interesses do poder centralizador, quiçáz um parente polido do falecido poder moderador, inventavam novos sistemas de votações. Nossos legisladores gostaram tanto de criar códigos, que terminaram criando um código eleitoral. Esse ancestral do código atual proibia as mulheres, ex-escravos e analfabetos de votar. Um deles, seu sucessor, gerou o voto indireto num inventado Colégio Eleitoral. Foi então, que apareceu na nossa centenária república à Constituição ‘colcha de retalhos’, costurada por PECs congressuais, atentamente disciplinadas pelo entendimento dos ministros do Poder Judiciário.

Festejamos, portanto, uma república proclamada em 1889, cheia de leis que brasileiros desconhecem ou não as cumprem, inclusive algumas autoridades federais. O processo eleitoral representativo, diferente do idealizado pelo senador Ruy Barboza, graças aos recursos criados no emaranhado atual dos cálculos, elegeu oito deputados federais no Mato Grosso do Sul, que não dependeram somente dos seus votos para tanto. Isto, sem mencionar um expressivo quantum de deputados estaduais, ungidos pelos votos de legenda. O alagoano Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, arquiteto da república, morreu sem conhecer o ‘coronel televisão’, maior cabo eleitoral deste pais, com suas pesquisas para mais e para menos, fazendo diariamente a cabeça do povo indeciso em todos os níveis socais.

Seus sucessores, democratas e ditadores, no regime republicano cumpriram mandatos temporários diferentes. Um deles, como ditador e presidente, governou por dezenove anos a Republica dos Estados Unidos do Brasil, hoje renovada para federativa. Este mandatário, certamente ofuscou o primeiro reinado do império abdicado pelo monarca da independência, nascido no Palácio de Queluz, em Portugal. Agora, finalmente, sem comícios e demagogos nos palanques, o feriado nacional significou mais um dia de descanso nas praias e nos campos, deixando as ruas do Geraldo Vandré, vazias. Assim, a república proclamada por homens guerreiros barbudos, simbolicamente representada com formas de mulher, vai ser governado por uma delas...

advogado criminalista, jornalista.
Email: isane_isane@hotmail.com


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