quarta, 05/outubro/2011 15:46:00

Gastronomia nacional redescobre Cascudo


O bom chef de cozinha, antes de tudo, é (ou deveria ser) um pesquisador dedicado. Não se conhece a destreza de Câmara Cascudo na cozinha mas, graças a ele, o imenso cardápio que forma a gastronomia nacional teve seu mais completo estudo no livro "História da Alimentação no Brasil", lançado originalmente em 1963. É essa obra fundamental que inspira o evento "Pitadas de sabores e alimentos do Brasil - Homenagem a Câmara Cascudo", promovido pelo SESC Carmo, São Paulo, de 14 de outubro a 1º de dezembro. A pesquisadora potiguar Adriana Lucena é uma das convidadas do encontro culinário, juntamente com Pedro Vicente Costa Sobrinho, da ANRL.

 
Adriana Lucena será a única chef potiguar no evento 'Sabores'

A programação busca analisar a formação da cozinha nacional com base no livro de Cascudo, através de bate-papos, degustações e apresentações a cargo de chefs de cozinha, donos de restaurante, pesquisadores e antropólogos. Serão ao todo oito encontros, nos quais teoria e prática vão se juntar para se entender a cultura alimentícia do país, a partir das influências portuguesas, indígenas e africanas tão bem delineadas e descritas pelo historiador potiguar.

"Fiquei muito feliz por ter sido convidada para participar deste encontro. Cascudo é uma referência sempre citada em minhas palestras, e fio condutor de muitos estudos que já fiz", afirma Adriana Lucena, cuja participação ocorrerá no dia 24 de novembro, com a palestra "Pimenta na panela dos outros é tempero", que ela dividirá com a sommelier e administradora Daniela Narciso.

Adriana Lucena é hábil cozinheira - não gosta de ser chamada de "chef" - e profunda pesquisadora da gastronomia nacional, tendo Câmara Cascudo e seu livro clássico como maiores referenciais. "Quando comecei a me especializar em pimentas, observei que apesar de ser um tempero 100% nacional, era bem pouco valorizado pelas pessoas. Pimenta não é só malagueta ou de cheiro, existem centenas de outras mais para saborear", explica. Adriana ressalta o fato de o Cascado ter abordado com bastante propriedade a diversidade do uso da pimenta em molhos nacionais, incluindo afro-brasileiros e nortistas (no tucupi, por exemplo), traçando as características de cada região.

Para a apresentação no evento em São Paulo, Adriana vai falar sobre a pimenta na cultura brasileira, a difusão pelo mundo, molhos clássicos e seu uso em pratos modernos, como na tortinha de queijo com pimenta e até em sorvetes. Não precisa de assustar. Segundo ela, é tudo questão de harmonização: as pimentas amarelas são perfeitas para frutos do mar; as vermelhas para carnes, e as mais picantes para carnes exóticas. "Espero que esse evento sirva para o nosso Estado valorizar mais as coisas da terra", alfineta.

A coordenadora de alimentação do Sesc Carmo, Mariana Meirelles Rucco, afirma que o objetivo do evento nasceu da própria importância que o livro tem para a gastronomia nacional. "É um trabalho importantíssimo, sempre oportuno para ser resgatado e celebrado", diz. Ela ressalto o fato de o Sesc possuir dois restaurantes que atendem a um numeroso público, razão de valorizar bastante a gastronomia. "O evento terá um caráter interdisciplinar, portanto, vamos falar e também saborear, sempre com degustações a cargo de gente especializada", completa.

Tribuna do Norte


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