quinta, 21/julho/2011 10:28:00

Parentes

Isaac Duarte de Barros Junior*


De modo eficaz, nada possui maior capacidade para aniquilar uma família, de qualquer tamanho, do que o fato dos seus integrantes viverem as turras e desunidos. Pois, ocorrendo inoportunas disputas internas no seu seio, logo afloram animosidades e estas diferenças geram crises da convivência social entre seus membros. Apesar de nascidos no mesmo berço, esses irascíveis de laços familiares comuns, embora umbilicalmente estejam ligados pelas circunstancias do nome, estupidamente às vezes se odeiam. Perceptivelmente, se tornou fato comum, alguns consangüíneos indisporem-se, fazendo-o imotivadamente, para depois viverem de relações estremecidas, geralmente agredindo-se com palavras.

Afinal, nessas fogueiras de vaidades, algumas famílias nutrem acrimoniosos dissabores, ao perceberem no parentesco, alguns primos mais afortunados economicamente. Enquanto outros, igualmente parentes, sendo recalcados, estimulam o ódio flamejante, enciumados com as realizações de parentes próximos. Frustrados, inúmeros convivas, sentem raiva dos acúmenes qualitativos da parentalha. Notadamente, os existentes em seus colaterais destacados nos círculos de amizades, conceituados na sociedade. Inclusive, sendo parentes raivosos, como na antiga história do bíblico Caim, concluem as suas patifarias, atirando rubras labaredas de ódio. Inclusive, esses parentes pelo sangue, comparando-os ao personagem Pedro Malasartes, nota-se que todos sempre mentem. Porém, tendo as calúnias delatadas, maldizem os seus delatores, desmentindo-os. Todavia, reencontrando-os ocasionalmente, distribuem beijos fingidos no tratamento.

Preteridos, vários parentes usam as mãos crispadas em brasas, queimando-as moralmente toda vez que caluniam. Porque, somente comportando-se dessa forma, alguns integrantes das grandes famílias conseguem dividi-las, usando as armas da hipocrisia. Todavia, se no adágio popular a praga de urubu nunca matou cavalo gordo, certamente o veneno letífero de serpentes traiçoeiras pode matá-lo. Desse jeito, seja numa cocheira ou no campo, tal ironia só seria evitada, ficando alerta com as emboscadas dos animais peçonhentos. Porque o acontecimento de alguém identificar-se como parente consangüíneo, não o habilita a ser considerado insuspeito de deslizes, que sem questionamentos pode usufruir da qualidade de pessoa confiável. Mas, esses inimigos fraternos, forjados na bigorna do parentesco, muitos desandam a dizer inverdades nos comportamentos rotineiros. Assim, mascarados num falso sorriso, se forem candidamente aceitos no convívio familiar, como embusteiros natos, espalharão cizânias. Porque ditos parentes e inimigos cordiais, são seres hostis da mesma progênie. E embora sejam oponentes desde berço, diversos parentes vivem se digladiando sob o disfarce da impostura. Porém, quando convidados ao aconchego do lar em comum, se reunidos nos encontros festivos familiares, persistem em continuar fingindo. Demonstrando dessa forma, um carinho inexistente.

Entretanto, no fundo dessa perfídia acumulada, tramando novas maldades, a vontade de determinados parentes, é aniquilar com quem lhes dá amor. Afinal, fragilizados esses laços de sangue, há parentes se realizando, mui plenamente, quando sorrateiros sentem-se algozes. Ocorrendo isso, parentes ingênuos nascidos no mesmo berço, se transformam em vítimas dos ladinos parentes perjuros. Acredito, fossem esses parentescos insidiosos, tipos de pragas vegetais, certamente que matariam qualquer planta.

Por isso, muitos parentes inclinados a serem opostos, sempre aguardam de atalaia nas sombras, o momento exato de atacar. Vangloriando-se das suas covardes falácias, havendo pessoas dando- lhes chances para contarem cretinices, exibirão defeitos enroscados na atitude reprovável. Portanto, é usando de repetidas artimanhas condenáveis, geralmente com o apoio de pessoas iguais no caráter, que os semelhantes se juntam nas maldades. Dessa forma, quando estes parentes reexaminarem na velhice os seus feitos vazios, já não poderão esconder que passaram à existência iníqua sem nada colher de louvável. Pois inconformados, acostumados a aplaudirem exclusivamente os feitos dos outros e difamar os sucessos dos parentes, confusos de finalmente estarem ao lado das pessoas do bem, pretensiosos dirão que os atributos vencedores de sucessores, são seus. Escondendo, cinicamente, seus fracassos pessoais...

*advogado criminalista, jornalista.


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