segunda, 15/agosto/2011 09:10:00

"Fugas"


 
Isaac Duarte de Barros Junior

Para fugir dos tumultuados dias do presente, sempre acerto o compasso de meus passos emocionais, conseguindo novamente andar por ruas imaginárias nas rotineiras noites insones, quando carrego o meu pesado fardo chamado saudade. Assim, envolvido num adejo dolorido, impulsionado pelo pensamento, caminho pelas épocas passadas. Nessas horas nostálgicas, transponho as lembranças do acontecido, abrindo passagens incensadas das minhas melhores recordações. Nessas situações letárgicas, pessoas mortas são lembradas, bem vivas nas paisagens antigas.

E algumas dessas ternas reminiscências adormecidas, devido ocupações profissionais, só reencontro-as na solidão de recordações passadas. Mas mesmo não querendo lembrar-me de coisas idas, elas fascinam-me ressurgindo, abrindo espaços, despertadas num lugar empoeirado da mente. Acredito que vulgarmente, a esse recinto, o chamamos de cantinho das memórias. Nesses minutos nostálgicos, evito ouvir toques de telefones celulares, aproveitando para derramar algumas lágrimas saudosistas graças ao silêncio. Sentindo-as correr lentamente na face, nos sulcos cavados pelo tempo em meu rosto, deixo-as umedecer as rugas que começam aparecer.

Porém, noto ser verdade incontroversa, o fato que a vida realmente abate os fracos. E revivi isso, repassando os olhos num poema antigo de Gonçalves Dias, famoso vate maranhense. Inteligente, ele lembra no seu escrito poético, o elanguescer dos homens comuns. Para quem não sabe, esclareço que este bardo brasileiro nordestino, viveu no século dezenove, casado com uma mulher cafuza. Às vezes, amargurado pela perca de seu grande amor, nas horas de tristeza ele compunha poemas épicos, homenageando índios Tamoios da sua terra natal. Desgraçadamente, esse jovem poeta morreu afogado num naufrágio, sucumbindo nos verdes mares bravios, que lhe serviram de túmulo.

Todavia Gonçalves Dias, amante da natureza litorânea tupiniquim, sequer pode ouvir em seu estertor final, os sabiás cantando nas palmeiras da sua crestomatia impressa de poesias. Entretanto, tivesse o erudito nordestino baixinho, vivido em nosso tempo, diferente de alguns políticos conterrâneos seus no presente, ele saberia o exato momento de parar na carreira, sumindo das páginas da mídia. Afinal, saber sossegar o facho na vida pública, caindo fora enquanto existem possibilidades, é uma das maneiras razoáveis de velhos próceres políticos serem lembrados nos livros escolares de história. Porque se algumas lembranças nos fazem chorar, outras circunstancialmente nos indignam mais. Justamente, por as revivermos num tempo, abastecido com malucos. Principalmente, impotentes observando-os nos governarem, cometendo crimes na liturgia do cargo. Frase esta oportuna, que consagrou outro maranhense vivo, lendo-a na tribuna da vetusta ABL.

Aliás, carece a sociedade atual, daqueles antigos valores éticos, qualidades existentes nos parentes e amigos honrados que foram embora desta vida. Refiro-me as pessoas de moralíssimas qualidades, donas de condutas confiáveis. Porque naqueles seres humanos mortos, diversos perecidos na juventude, havia como regra de vida, praticarem princípios da decência. E absolutamente, eu não acredito ser essas fatalidades, um destino já traçado previamente para os extintos, pois todos temos o livre arbítrio de fazer o nosso próprio acaso, onde afinal vi pessoas causarem as suas estúpidas mortes.

Na sua tese da vitimologia, doutrina Mendelsohn, que os atos fatais, consistem em vítimas provocarem precipitadamente circunstancias de riscos, causando seus óbitos prematuros. Inclusive, essa afoiteza pode acontecer, quando alguém corre de automóvel em alta velocidade, consome cigarros maléficos para a saúde, envolve-se em brigas violentas ou faz uso excessivo de bebidas alcoólicas. Afinal, todos nós quando nascemos, herdamos de ancestrais, condutas, temperamentos, simpatias e antipatias. Riquezas e pobrezas, somente dependem do berço. Pois nele, recebemos nossas dádivas e desventuras. Naturalmente, que nada disso entendemos, até ficarmos adultos. Dessa maneira, gosto do passado feliz. Não fico a vontade no presente, onde desconfio das pessoas. Quanto ao futuro, povoado de cretinos, prefiro nem comentar...

*advogado criminalista, jornalista.


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